
O único movimento que se via naquela sala escura era a dança discreta de um fio de fumaça que se esvaia de um toco de cigarro no cinzeiro. E às vezes as pálpebras de Beto que se rendiam ao piscar involuntário. A imobilidade dele era a sua forma de expressar a imensa inquietação de sua consciência arrependida. Às vezes até soltava alguns resmungos, que vezes pareciam súplicas, vezes gemidos dolorosos, vezes pareciam nada além de devaneio.
- Por que se sente assim, Beto? – Nada dizia. Era a voz dos fantasmas que assombravam o rapaz sendo capazes de falar apenas à sua mente.
Hora ou outra ele mesmo perguntava. E sempre respondia.
- Eu prometi não voltar. – Murmurava em resposta. – E prometi pela última vez.
- E quantas últimas vezes já não o prometeu? – Gemia dolorosamente.
As chaves do carro, repousadas sobre uma pequena mesa de centro, refletiam a luz da lua que entrava pela janela entreaberta deixando escapar o vento frio da noite.
- Talvez se eu tentar mais uma vez... Já faz um mês desde que prometi... É um recorde... – Murmurava mais e mais. Quem conseguisse olhar em seus olhos naquele momento, não veria nada. Absolutamente nada. O que por si só já é bem estranho. Todos têm algo a mostrar em seus respectivos olhos. Ele já tinha tanto a mostrar que já não cabia em seus próprios. Parecia que até a luz tratara de escapar dali para não ter parte na culpa que jorrava daquela figura derrotada estirada na poltrona.
Por quanto tempo Beto permaneceu ali? O tempo que marquei no relógio seria injusto com o tempo que marcara o pobre homem no coração.
Dê-me ação, Beto...
- Eu voltarei pela última vez – Disse levantando-se. Já é uma ação mesmo que repetida mil vezes. Ainda é uma ação.
Não imagine empolgação, pois esse é um sentimento que não acompanharia o nome de Beto naquele instante nem se separados por trechos e trechos de prosopopéias escritas em prosa. Se pudesse dar um nome àquele “nada” em seu olho, eu diria ser simplesmente cansaço. E cansaço de tudo.
Catou as chaves e caminhou pausadamente até a porta. Buscando forças para desistir. Voltar para ela era o que sempre fazia. Já não tinha medo disso. Queria forças era para desistir daquela tentativa vã.
Dirigia sem concentração alguma. Trecho tão conhecido. Tão repetido
- Talvez ela venha com você dessa vez, Beto – Sugeriu aquele fantasma.
- Eu pensei isso das outras vezes.
- Então morra, Beto! Se nada lhe anima, morra! Se você tem tanto problema em sentir, morra!
- Aí eu não teria chances de estar com ela... Depois de morto eu não poderia estar com ela.
Pobre, homem. Já era um louco. Conversando sozinho.
Mas pensando bem, não estava sozinho. O fato de apenas ele ouvir aquela voz não fazia dela irreal. O fato de ser apenas uma voz não me faz irreal.
Parou na porta da casa dela e olhou para uma figura ligeiramente delicada sentada no meio-fio. Cabeça baixa. Não se incomodou de ver o carro.
Beto saiu do carro lentamente e foi em direção a ela que parecia não abrir mão de observar o asfalto frio.
- Por que está aqui fora? Sempre que eu volto você está lá dentro. – indagou com ar monótono, porém notoriamente surpreso.
- Você demorou dessa vez. Resolvi esperar aqui fora. – Dizia a garota levantando graciosamente a cabeça revelando os olhos castanhos escuros brilhantes à luz do luar. Dizia com uma voz doce. Tão doce que me fazia ter inveja de Beto por estar ali contemplando voz e olhar de uma criatura que me lembraria certamente uma fada se eu fosse capaz de acreditar em tais seres.
- Então talvez eu mude meu roteiro hoje. – Disse focando firmemente os olhos dela. – Eu vim te buscar. Como nos contos de fadas.
- Você precisava de um cavalo branco. E talvez um corpo mais atlético. E geralmente os príncipes das histórias são altos, loiros e com olhos claros. – Ela tentava desviar o olhar para que nada transparecesse por eles.
- Eu não tenho cavalo branco. Nem sei montar. Tenho só esse Voyage prata. Dá pra te levar a algum lugar com ele. – Pausou a fala e sentou-se ao lado dela no meio fio. – E não insulte minha observação. Nenhuma dessas características que narrou te interessa em um homem.
Ela abaixou a cabeça voltando à sua observação minuciosa do asfalto. Não enganava ninguém. Olhava para baixo, mas talvez nem soubesse o que havia ali. Para qualquer lugar que olhava só conseguia notar a presença de Beto que não era nada marcante a não ser para ela mesma.
- Eu só queria entender o porquê de tudo isso. – indagou Beto suavemente. – Por que você não aceita estar comigo? Só é necessário sentimento recíproco. Eu esperei você pensar por meses, mas nunca me respondeu até que eu fui embora e você não fez nada para me impedir. O que falta para se decidir?
- Eu tenho um trauma.
- Nós temos vários.
- Eu tenho medo.
- Nós nos protegeremos.
- Eu sinto vergonha.
- Nós a venceremos com o tempo.
- Você é muito insistente. – Ela levantou-se e cruzou os braços e ficou em pé naquela posição.
- E você é muito indecisa – Beto também se levantou tentando se aproximar dela. - Se você não me der uma resposta agora eu irei para casa te enterrar em meu travesseiro com lágrimas, sonho e sumo. E prometo por lá ficar e nunca mais voltar.
Ela deu um sorriso tão gracioso que me faria crer no divino.
- Você sempre fica lírico quando fica nervoso. Sempre me diz que vai embora de uma forma diferente. – Disse a menina levantando uma das sobrancelhas desenhando uma expressão de leve malicia.
Estou torcendo por você, Beto...
Dê-me ação...
Beto aproximou-se mais e ela não o impediu. Abraçaram-se fortemente como se aquele abraço fosse o ultimo. E não o ultimo deles, mas o ultimo da humanidade. O amor que emanava deles parecia tão denso que consigo descrevê-lo como matéria.
Ela beijou-lhe o pescoço e disse carinhosamente:
- Eu preciso pensar. Eu preciso de tempo para pensar.
Ele juntou todas as forças e desfez-se do abraço, olhou nos olhos dela e fez a sua minuciosa leitura.
- Nosso sentimento é recíproco. Eu não entendo. Eu já esperei de mais.
- Me entenda. – suplicou-lhe a garota com tamanha ternura...
- Eu não entendo... - Disse Beto se afastando lentamente. Virou as costas e caminhou vagarosamente em direção ao carro.
- Se você não for atrás de mim agora, eu prometo nunca mais voltar. – Disse o rapaz sombriamente.
- Você sempre promete isso.
Ela se virou e foi em direção a casa caminhando tão lentamente quanto ele. Ambos de cabeça baixa. Andavam tão cuidadosamente que não se ouvia sequer seus paços. O único ruído audível era o do vento que agitava as folhas das árvores tentando afinar uma bela trilha sonora par aquele triste casal que se afastava um do outro.
Beto segurou na porta do carro. Parou por um segundo pensativo.
Fale algo certo, Beto.
Dê-me ação...
Respirou fundo e disse a ela com ar de última despedida:
- Um dia eu decido cumprir minhas promessas.